Introdução
Dentro do processo
educativo está embutido diferentes elementos multidimensionais que podem e
devem contribuir para a significação do ensino-aprendizagem. Cada componente
curricular associado aos constituintes que perfazem as múltiplas escalas
espaciais que circundam a realidade de cada escola formam a base teórica e
prática da sedimentação, aplicação e transformação do conhecimento e do lugar
no mundo. A não fragmentação desse conjunto de grande complexidade é uma via
importante para proporcionar o exercício da criticidade dos envolvidos no
processo educativo.
Diante desse intento,
de articulação do conhecimento científico com as sociabilidades inerente ao
lugar e a sua interdependência com as escalas mais amplas, neste relato,
busca-se evidenciar a importância do protagonismo de alunos que compõem cursos
técnicos integrado do Instituto Federal de Sergipe, campus Estância.
A constituição desse
processo não se deu modo isolado apenas com a participação de alunos e
professores envolvidos. Em todas as etapas a ação buscou integrar a comunidade
em seu entorno, outras instituições de ensino e profissionais de diferentes
áreas de conhecimento que agregaram conhecimento às ações de Educação Ambiental
(EA) concretizadas na Instituição supracitada e propagadas além dos muros da
Escola.
Esta experiência, se
deu a partir da submissão de um Projeto de Extensão que foi realizado a partir
dos pilares que a EA ambiental possibilita construir dentro do diálogo entre o
conhecimento formal e o saber popular. O objetivo principal foi mobilizar a comunidade escolar e externa
para implementar a troca de mudas e a criação de uma horta comunitária no
Campus Estância. A partir deste objetivo várias ações foram concretizadas
envolvendo diferentes agentes que contribuíram para concretizar ações que
permitiram um novo olhar sobre as possibilidades que EA podem transformar o
lugar, a partir do comprometimento com o seu o seu meio.
Desenvolvimento
Dentro deste viés de participação ativa, se pode citar o conceito de
Isabel de carvalho sobre Sujeito Ecológico. Segundo a autora, “a identificação social e individual com
esses valores ecológicos é um processo formativo que se desenvolvido a todo
momento, dentro e fora da escola, e que tem a ver como o que chamamos a
formação de um sujeito ecológico e de subjetividades ecológicas” (CARVALHO,
2013, p. 115).
A partir dessas subjetividades, buscou-se de diferentes maneiras o
despertar do sujeito ecológico, consoante as individualidades de cada agente
envolvido, as especificidades do lugar e a amplitude do senso de coletividade.
A junção desses elementos potenciais permitiu a obtenção de resultados além do
proposto inicialmente.
O processo de construção foi alicerçado a partir de um diagnóstico
do conhecimento prévio dos alunos e seus familiares sobre práticas sustentáveis
no cotidiano. Assim, como das perspectivas de comprometimento com o meio para
contribuir a própria qualidade de vida. Para a execução das atividades
propostas no projeto foi efetuada a revisão da literatura de diferentes áreas
do conhecimento, como Geografia, Biologia, Sociologia, Agronomia, dentre outras
que deram suporte teórico para a execução de práticas executadas durante a
vigência do projeto, sendo que algumas destas continuam, tanto no ambiente
escolar quanto na residência de vários alunos, a exemplo da horta agroecológica.
A execução do projeto se deu dentro do viés de não fragmentar o
conhecimento e o próprio sentido de Espaço Geográfico a partir da
interdependência entre os lugares e dos seus elementos bióticos e abióticos.
Assim, mesmo sendo ações localizadas, estas sempre estiveram associadas a temas
socioambientais amplos que envolvem não apenas a qualidade de vida da sociedade
atual e da vindoura, mas o sustentáculo ecológico para a manutenção da vida
humana, ou seja, o equilíbrio de toda a cadeia ecológica. Neste sentido, os
grandes temas socioambientais e políticos que afetam a dinâmica natural do
planeta foram alicerce para gerar as discussões e as práticas desenvolvidas em
todo o processo.
No Brasil, a EA é regulamentada a partir da Lei 9795/99,
Política Nacional de Educação Ambiental (PNEA), a qual prioriza sua prática
enquanto um processo educacional mais amplo sendo esta “um componente essencial
e permanente da educação nacional, devendo estar presente, de forma articulada,
em todos os níveis e modalidades do processo educativo, em caráter formal e
não-formal” (BRASIL, 1999, p. 1).
Dentro desse ciclo de desenvolvimento,
a EA deve estar presente em todas as fases do processo educativo. Contudo,
torna-se muito mais fácil e espontânea quando ela é trabalhada desde na
Educação Infantil. O trabalhar com ações sustentáveis e o contato com a
natureza de forma contínua desde a primeira fase da educação básica, imprime
resultados mais abrangentes e solidificados na corrente de propagação da EA
(BJORGE et al., 2017).
Vale ressaltar que, ao corroborar com
essa perspectiva de obtenção de resultados mais consolidados quando se trabalha
a EA desde a infância, não pretendemos anular ou secundarizar a prática da EA
nos demais níveis da educação. Deve-se ainda atentar para o fato de que o
tratar deste tema em sala de aula é bastante recente no mundo e no Brasil
(DIAS, 1998). Logo, nos demais níveis de ensino, se deve-se priorizar
fortemente a EA, sobretudo, pela possibilidade da ausência ou pela abordagem
deficiente nos demais níveis educacionais que esses estudantes tiveram ao longo
da vida estudantil. Além disso, deve-se pensar ainda naqueles que não
participam mais do ambiente escolar e que, durante a jornada estudantil, não
tiveram a oportunidade de serem contemplados com temas que tratassem sobre a
EA.
Ao conciliar as demandas globais e locais referentes ao
meio ambiente juntamente com a PNEA, emergem várias questões a serem
trabalhadas no ambiente escolar e difundidas até a sociedade em geral, a
exemplo da arborização, coleta seletiva, áreas de lazer que integram o sujeito
ao meio, redução do consumo desnecessário, dentre outras.
Diante dessa perspectiva abrangente de
diversidade de pessoas que precisam ser atingidas pelas práticas de EA, cabe
mencionar que:
O campo do educativo é bastante vasto,
uma vez que a educação ocorre em muitos lugares e sob variadas modalidades: na
família, no trabalho, na rua, na fábrica, nos meios de comunicação, na
política, na escola. Ou seja, ela não se refere apenas às práticas escolares,
mas a um imenso conjunto de outras práticas educativas (LIBÂNEO, 2002, p. 33).
Essa assertiva demonstra a abrangência
que a educação exerce na sociedade. Assim, cabe à escola oportunizar a integração
entre os diferentes meios de convívios sociais, a partir de ações em que se
permitam articular a teoria com a prática.
A partir dessa correlação, nesta pesquisa buscou-se
priorizar e contribuir com a difusão da EA articulada à educação formal e à
inclusão dos familiares dos alunos. Assim, priorizou articular elementos pertencentes
à escala geográfica local, junto aos grandes temas socioambientais que se
propagam em todas as escalas geográficas.
Ao recapitular algumas atividades
realizadas durante a vigência desse projeto, pode-se citar a catalogação dos
tipos de plantas presentes nas residências dos alunos, do Campus Estância. Logo
após, foi determinada a área de cultivo para a implantação da horta no Campus.
Posteriormente, foi realizada uma visita à cidade de Itabaiana - SE até uma
propriedade rural onde os alunos bolsistas e voluntários conheceram algumas
plantações de hortaliças orgânicas. Em seguida foi realizada uma visita técnica
ao parque da sementeira situado na cidade de Aracaju - SE para a capacitação
acerca de substratos.
Ademais, foi realizada a Primeira
Semana da Sustentabilidade no Campus Estância. Este Evento foi propagado em
todas as escolas que presentes na sede municipal da supracitada cidade. Assim,
participaram das atividades os alunos do Instituto Federal de Sergipe,
Campus Estância, e comunidades escolares privadas, municipais, estaduais, além
de estar aberto à comunidade em geral. O evento foi coordenado pelos envolvidos
nos projetos de extensão “Horta Solidária” e “Reciclando Atitudes”. O intuito
da Semana da Sustentabilidade foi propagar a educação ambiental por meio de
práticas sustentáveis, tendo como ferramentas para a multiplicação da EA, a partir
de palestras, oficinas e minicursos, assim como a doação de mais de 5 mil mudas
de plantas.
Todas
as atividades tiveram um grande papel na multiplicação de práticas
sustentáveis, visto que, possuíam como ferramentas a junção da teoria e prática
para a melhora na propagação do conhecimento sustentável. Dessa forma, pode -se
destacar os minicursos “Implementação de hortas” e “Compostagem para a redução
de resíduos e produção de adubo” e a palestra sobre as “Alternativas
sustentáveis de cultivo de plantas em ambiente doméstico”, onde o público pôde
observar os cuidados necessários para o cultivo de plantas em ambientes
residenciais. Posteriormente, os alunos e demais participantes, partiram para a
implementação da horta no campus. A Ação foi integradora, pois todos tiveram
participação na elaboração da horta presente na instituição.
Ao dar sequência, cabe ressaltar ainda
a atividade efetivada I Semana da criança. Com a proposta de propagar o
conhecimento e ensinar para as crianças sobre EA e sustentabilidade, na Escola
Municipal Laura Cardoso, localizada nas proximidades do Instituto Federal de
Sergipe, Campus Estância. Coordenada pelos orientadores do projeto, bolsistas e
voluntários, além da contribuição de mais de 20 alunos do próprio Instituto.
Nesta ação foram realizadas
oficinas, peça teatral e jogos para as crianças. Tais oficinas foram de
confecções de brinquedos recicláveis, porta lápis reciclável, produção de
terrários, pintura no rosto das crianças. Atendendo o público da
creche que participaram oitenta crianças. Ademais foram ofertados lanches contendo alfaces colhidas
da horta do Campus
A peça teatral apresentada foi
realizada com a participação dos alunos do campus, para ministrar cada papel, a
mesma consistia no ensinamento sobre EA abrangendo sobre o assunto do
desmatamento e poluição. Sendo um dos grandes problemas ambientais da
atualidade, o desmatamento de forma ilegal e em grande quantidade, traz grandes
problemáticas para o meio ambiente, como a diminuição das plantas que
consecutivamente intensifica o aquecimento global do planeta. Por isso, umas
das maneiras mais eficaz e integradora, é ensinar desde pequeno para as
crianças a importância das plantas e do meio onde vivem.
O desenvolvimento dessas atividades
permitiu evidenciar que a interação entre os alunos, se mostra importante, juntamente
com a integração social a partir do compartilhamento de saberes. As atividades
extraclasse viabilizam que os alunos interajam melhor entre os colegas e
professores e a própria comunidade em que vive, propagando o conhecimento entre
os familiares, amigos e outras instituições educacionais (figuras A e B).
Figuras A e B: Peça teatral e brincadeiras de roda com as
crianças realizada na Semana da Criança. Fonte: Trabalho de Campo, 2018
Dentro das atividades desenvolvidas
durante a vigência do Projeto, pode-se citar ainda a exposição na IV Feira de
Ciências do Instituto Federal de Sergipe, Campus Estância. O bolsista e
voluntário do projeto, ficaram responsáveis em apresentarem alguns métodos
sobre a implantação de hortas em grandes e pequenos espaços, os principais
nutrientes que as plantas precisam para a sua sobrevivência e algumas maneiras
fáceis para manter as plantas vivas, principalmente hortaliças.
Figura C e D: Exposição das alfaces, adubos orgânicos e
explicação aos convidados na Feira de Ciências
Fonte: Trabalho de Campo, 2018.
Considerações finais
Dentre as várias contribuições do Projeto,
pode-se citar o despertar dos grandes temas socioambientais e os seus
respectivos impactos no cotidiano de cada ser social, assim como foi construída
uma visão abrangente sobre a importância das pequenas ações que a própria
população pode efetuar contribuindo para uma melhor qualidade de vida e
sustentabilidade do planeta.
Outrossim, a abrangência da contribuição no
entrono escolar foi de grande relevância. Foi perceptível que ocorreu o
despertar sobre a Educação Ambiental diretamente com alunos e professores das
escolas que tiveram envolvimento com as atividades do projeto. Se pode
constatar os bons resultados tanto nas escolas que visitaram o Campus, no total
de 8 escolas visitantes, quanto aquelas em que foram visitadas pelos
integrantes do projeto e demais voluntários. Neste sentido, se torna evidente,
a partir da teoria apreendida, juntamente com a vivência prática a importância
de se aplicar a EA no cotidiano de todos nos diferentes recortes espaciais.
Ressaltando assim, o valor da coletividade e da economia solidaria que foi
praticada e propagada nas atividades executadas.
REFERÊNCIAS
BJORGE, S.; HANNAH, T.; REKSTAD, P.; PAULY, T.. The Behavioral Effects
of Learning Outdoors. In: Masters of Arts in Education Action Research
Papers. (2017). Disponível em: http://sophia.stkate.edu/maed/232
BRASIL. Congresso Nacional. Lei n. 9.795/99. Dispõe
sobre a educação ambiental, institui a Política Nacional de Educação Ambiental
e dá outras providências. Brasília, DF, 1999.Disponível em:
http://www.planalto.gov.br/cCIVIL_03/LEIS/L9795.htm. Acesso em: 17 Abr. 2018.
CARVALHO, Isabel Cristina de
Moura . O sujeito ecológico: a formação de novas identidades na escola. In:
Pernambuco, Marta; Paiva, Irene. (Org.). Práticas coletivas na escola.
1ed.Campinas: Mercado de Letras, 2013, v. 1, p. 115-124.
DIAS, Genebaldo Freire. A
Implantação da Educação Ambiental no Brasil. 1ªed. Brasília: MEC, 1998.
LIBÂNEO,
J.C. Ainda as perguntas: o que é pedagogia, quem é o pedagogo, o que deve ser o
curso de pedagogia. In: PIMENTA, S. G. (Org.). Pedagogia e pedagogos:
caminhos e perspectivas. São Paulo: Cortez, 2002. p. 59-97
Bom dia !
ResponderExcluirParabéns!
Muito interessante , o desenvolvimento desse trabalho ofereceu a oportunidade da comunidade e das famílias estar presente na escola. E as atividades realizadas pelos alunos foram diversificadas proporcionando assim que eles próprios escolhessem o qual mais despertou o interesse. Conforme (CAPRA, 2006).O ser humano deve se tornar ecologicamente alfabetizado ou “eco-alfabetizado”,o que implica na compreensão dos princípios dos ecossistemas (organização das comunidades ecológicas) e saber como utilizar apropriadamente tais princípios para formar comunidades humanas sustentáveis.
Ilza
Campo Grande/MS.
Prezada IIza muito obrigada pelo seu comentário. Dentro dessa perspectiva da necessidade de tornar os indivíduos seres "eco-alfabetizados" pode-se relacionar com o princípio: " Ética da responsabilidade com as gerações futuras" criada pelo Filósofo Hans Jonas, que mostra o dever de cada indivíduo na atuação de forma consciente sobre todos os recursos extraídos da natureza. E para isso, a Escola deve estar à frente para contribuir no direcionamento de desenvolver a criticidade de sua comunidade e estender até ao meio que o circunda. A EA deve estar presente em todas as esferas sociais, não apenas para formar comunidades economicamente sustentáveis, mas para mudar o cenário de degradação que avança ao longo dos séculos de exploração. A oportunidade de interagir com trabalhos sobre essa temática em diferentes escalas geográficas também se torna mais uma importante ferramenta pedagógica para impulsionar a EA no nosso cotidiano.
ExcluirParabéns pelo excelente trabalho!
ResponderExcluirÉ imprescindível fomentarmos a elaboração de projetos que compreendam o Meio Ambiente a partir de uma perspectiva holística.
O tema Meio Ambiente não poderia ser mais atual, tendo em vista que vivemos um período de extrema regressão da qualidade ambiental, em que se prioriza apenas as benesses do lucro, em detrimento da qualidade ambiental.
A Educação Ambiental emerge como uma necessidade, um princípio em que deve ser trabalhado em todas as escolas.
Assim, gostaria de saber se os pesquisadores tem acompanhado os lócus onde o projeto foi implantado?
Foram adotadas outras práticas de E.A no contexto escolar?
Obrigada pelo compartilhamento,
Att, Lília.
Prezada Lília, agradecemos a sua contribuição. A construção desse projeto foi muito gratificante em todos os sentidos, e sobretudo, pela integração e comprometimento que os alunos e seus familiares tiveram desde o início. A participação de outros professores de diferentes áreas, como a Engenharia civil e elétrica, também foram cruciais para automatizar a horta e repassar o conhecimento para os alunos, os quais já dissipam o conhecimento. Desde o ano passado, eu me afastei do Campus, devido uma capacitação. Mas, vários alunos estão à frente das atividades de modo voluntário. Foram adotadas, ainda, a compostagem, a partir dos restos de alimentos e o incentivos para reciclagem e redução de descartáveis sempre estendendo aos familiares da comunidade escolar.
ExcluirAtenciosamente,
Márcia Santos
Muito bom o relato de experiência. Sem dúvidas, impactou muitas pessoas e mudou suas perspectiva sobre a EA, digo. Gostei bastante como você se embasou na Geografia, Biologia, Sociologia, para aventurar-se a produzir o relato. Não tenho dúvidas, o trabalho foi redigito de forma clara e objetiva. Parabéns.
ResponderExcluirJerfeson Alves da Costa